quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Vênus de Veleidade


Posto o encanto tal qual rotina
De adorno armado em devaneios meus.
E no aguardo - morosa tortura - contemplo 
O débil efeméride deposto a frente.

Quantos ciclos correrão até o dia
Em que no doce enlace eu repouse, enfim?
Ouço gracejos do relógio, apático
Em sua dança hipnótica - que me furta o sono.

E afasto teu rosto de minha mente.
Esse sorriso - que eu mesmo inventei.
Suprimo a matiz dos seus lábios, róseos.
Tinjo o nácar usando o ébano - e é tudo negrume.

Porque eu te criei para me servir no exílio;
Como uma lembrança, um placebo, uma abstração.

Vivo noites que duram dias,
Dilatadas pela sua ausência aqui.
De espaços que não foram - por ti - ocupados;
Exceto na fantasia enferma que escrevi.

E quando vier o sol, fulvo em lisura e viço,
Clarear as trevas que me tomam a alcova;
Descobrirei que não passas, uma vez mais,
De uma Quimera notável - minha fábula pessoal.

Infeliz é aquele que pondera com o peito em brasa;
Aflito por dores nunca sentidas.
Enamorado por uma Vênus de veleidade;
Mas que insiste em guardá-la, em toda alvorada...

No égide do seu parvo coração.

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