Hoje eu me senti um pouco mal quando voltava do trabalho.
Haviam casais andando pelas ruas, enquanto eu pensava sobre a natureza dos seus relacionamentos.
São muitas vezes pessoas que cresceram juntas, no mesmo bairro, na mesma cidade.
São pessoas que falam de forma parecida, que pensam de forma parecida.
São pessoas que tem vidas muito semelhantes, que tem os mesmos interesses e que provavelmente desejam os mesmos desejos.
E ainda assim, com tantas coisas em comum, eles parecem, em sua grande maioria, fadados ao fracasso. Sim, basta observar a quantidade de relacionamentos que efetivamente floresce nessas situações.
São poucos aqueles que duram mais que alguns meses.
A rotina, os problemas, o desinteresse. O tédio.
Tudo isso parece afastar as pessoas.
Assim como a geografia da cidade, as pessoas mudam.
Seus sentimentos mudam, suas motivações mudam .
E muitas vezes essas mudanças alteram os relevos de seus corações.
E dos seus amores.
Como a maré - que muda gentilmente - eles flutuam, empurradas para a costa.
Quantos amores não acabam, por fim, morrendo na areia, depois de sufocarem em uma maré alta?
Eu penso em meu amor.
Algo que eu mesmo não entendo bem. Que ainda não descobri em totalidade - e que me intriga.
Há tanto a se fazer, tanto a se crescer. E ainda terei tantas marés para enfrentar.
Ele será lançado contra os corais. Contra as rochas. Submerso, depois imerso apenas para ser chicoteado de novo.
Ele deve se fortalecer, deve ficar mais resistente. Mas sem que pra isso preciso endurecer.
Pois um coração (e um amor) áspero não deve ser um bom amor.
Eu invejo a oportunidade que as pessoas tem de dividir a presença de seus amores.
Como banalizam a oportunidade de apreciarem livremente algo tão raro.
E reprovo a forma como procuram compromissos para se evadirem uns dos outros.
Afinal, amar não é "querer estar"? Nem sempre, eu entendo - pois é necessário sentir saudade de vez em quando. Mas o toque é precioso - e curativo. Talvez daqueles curativos que não sirvam pro corpo - mas pra alma... oh... se serve...
Eu penso no infinito que me separa dela, e de como ela lida com isso.
De como cada um lida com a saudade, que a falta que o outro faz. Como as caminhadas noturnas fazem falta - e como os cafés da manhã são preciosos. Mesmo que se resumam a chá e barras de cereais.
Penso em como ela se deita, como ela pega no sono. Penso em como ela reage quando sente medo.
E me culpo, por não poder lhe dar a força - ou pelo menos um sorriso - que a conforte e aqueça seu coração.
Diferente dos casais que tem tudo igual, nós temos muito pouco.
Nossos objetivos parecem retas paralelas. Mesmo próximos, parecem não tocar um no outro.
Penso nos longos períodos em que a vida provará nossos sentimentos. Em que nos separará ainda mais. Em como será doloroso deixá-la ir. No medo quase abissal que eu vou enfrentar.
Em todos o desafios que ela terá que superar sozinha. E na insegurança de um retorno - ou de algo que valha.
Ela tem seus probleminhas.
Que eu ainda não posso ajudar a curar.
E poucas coisas me deixam tão triste quanto imaginar ela sofrendo, sozinha, naquele quarto abafado.
E eu sem poder ajudar.
Penso no medo da solidão.
De tantos dias e noites sem "ela", e dela sem "eu".
E de tantos e tantos até o dia em que, talvez, possamos estar, de fato, um com o outro.
Inseparáveis. Indissociáveis.
Percebo que deveria me esforçar para montar defesas. Ser rígido como ensinam os homens a ser.
A
não demonstrar dor. A dor de ombros para essas coisas. Afinal, homem
que é homem molda o próprio destino. Mas essas coisas... não sei... Não
visto bem essa fantasia.
Então eu vejo que estou mudando... Que os anos tem levado mais cabelo e ânimo (nessa ordem mesmo). Que eu estou começando a gostar mais de jazz do que pensei ser capaz. E que eu já começo a levar os estudos a sério (e até tenho feito a lição de casa). Que eu uso óculos com mais frequência, que os tênis estão sendo trocados por botas ou sapatos mais discretos. Estou levando o futebol menos a sério, não tenho nenhum jogo instalado no computador e nada disso me incomoda.
Tem nori e karê no armário, conserva de gengibre na geladeira e singles da Ayaka e da Utada Hikaru no meu celular. E por incrível que pareça... Me sinto muito feliz assim.
Eu não sei se eu poderia fazê-la feliz.
Se nosso amor sobreviverá a tantos invernos - e tantas mudanças de maré.
Mas eu quero que nosso amor não seja como esses tantos, sufocados nas ruas estreitas do interior.
Eu quero estar ao lado dela. Quero segurar a mão dela. Dividir um guarda chuva - ou uma manhã ensolarada. E quero, na medida das minhas limitações, fazê-la feliz.
É uma promessa.
Que eu pretendo cumprir.

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