sábado, 21 de novembro de 2015

Inocência


Eu sempre me achei esperto.
Acho que é por causa das coisas que a gente vive.
E sabe, são coisas que te fazem criar uma certa "casca".
Te deixem forte. Firme. Te deixam bem mais agudo.
De alguma forma, você aprende a reagir rápido.
A não ficar rígido. A dobrar pra não quebrar.
E a voltar ao lugar. Pra bater de volta. Mais forte.

Você começa a se acostumar a ver coisas ruins.
Coisas que destroem a vida das pessoas.
Começa a perceber que esposas apanham dos maridos.
Que mulheres são usadas e ninguém é punido por isso.
Que crianças são vítimas de maus tratos todos os dias.
Que elas sofrem sozinhas, em casas úmidas e em lares depedaçados.
E apesar de tudo isso ser o inferno na terra, você começa a tolerar essas coisas...

Porque elas são tão comuns...

E as vezes, você encontra pessoas diferentes. E começa a acreditar que pode ter uma vida diferente.
Que pode haver um futuro que não seja esse. Que seu horizonte pode ser mais bonito.
Que existe algo onde depositar a sua fé. E que talvez, valha a pena investir.





Mas nesse mundo, não existe lugar seguro.

O mundo real é mais cruel, mais sujo e lascivo.
E todo o canto dele é preenchido com alguma dor.
Ou com alguma vergonha. E ele apontará o dedo na sua cara.
E rirá de você. Te jogará no chão. E não há lugar onde se esconder.
Não há porto seguro, nem horizonte. Só há sua dor. Suas fraturas. Seu medo.

Que é só seu.
Ninguém pode dividir.
Ninguém pode carregar por você.
Ninguém.

Ninguém te entende.
Ou te entendeu.
Ou entenderá.

A verdade dessa vida é que você está sozinho.
Sendo espremido no canto. Apanhando.
Onde mais te dói.

Este mundo é um lugar cruel.

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