quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sobre gaiolas

Eu costumava criar aves
Meus fins de semana contemplavam um ritual sagrado
Trocar as sementes, deixá-los aproveitar o calor do dia
Era estranhamente feliz fazendo tudo isso;

As diferentes notas de suas vozes
As matizes de suas penas, que refletiam a luz do sol de domingo
A sensação de pesar a cada vida que não resistia ao inverno
mesclada a alegria infantil de ver um ovo eclodir no fim de setembro;

Eu nunca questionei se eles eram felizes
Achava que estavam satisfeitos com suas vidas;

Hoje, eu tenho um canário no meu apartamento
Ele não canta mais - não com frequência
Nem temos tempo de aproveitar uma manhã de domingo
Ele está sozinho no beirada da janela;

E vê-lo assim me mata por dentro.

Eu também estou sozinho.
Enclausurado, de certa forma.

Todos querem que eu reaja, que eu me alegre, que eu cante.

É assim o desespero que meu canário sente, quando eu o enxergo de fora da gaiola?

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