quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Como ser invisível? - Parte I

Antes de tudo, essa história e real.

Ponto de ônibus, 22 horas e 05 minutos.

_Moço, sua mochila está aberta.
Ela tinha um cabelo castanho longo, liso, pele morena, bem clara. Olhos castanhos escondidos atrás de óculos de aros grossos, pretos e de borda branca. Um rosto anguloso e bem desenhado, com um sorriso fácil. Devia ter 21... 22 anos. Um pouco menor que eu. Calçava um Asics e usava um jeans skinny. Era realmente bonita. Não tinha aliança nos dedos.
_A... isso... ela é assim mesmo sabe...
_Assim... aberta?
_É... É uma mochila de tênis sabe? Você coloca a raquete aqui e ela fecha depois...
_Diferente né?
_Sabe como é... você faz a encomenda pela internet, te entregam o produto errado...
_Hahaha... A tá... é que eu vivo esquecendo a minha mochila aberta.
_A... mas tem seu lado bom. Essa mochila é tipo... A melhor maneira de puxar assunto com as pessoas na rua...

Ela ri. E dá boa noite. A irmã - de muletas - está com o pé fraturado (ou com o tornozelo torcido, vai saber) e ela vai dar-lhe atenção.

Silêncio.

Eu não vou atrás... eu fico lá parado. Eu nem sei se ela só riu por "obrigação".
E parece que eu vou sumindo, sumindo... e eu fico (literalmente) minúsculo.

Então paro pra avaliar minha atual situação.

Não sou tão feio assim. Na verdade, minha aparência até pode ser considerada agradável.
Não sou mal articulado. Não tremo e nem gaguejo na frente de desconhecidos. Não falo cuspindo.
Sou perspicaz e até minhas piadas inventadas na hora costumam funcionar.
Não sou restrito a dois ou três assuntos e tenho um leque cultural para me virar bem quase todas as situações. E quando falta conteúdo, sei dissimular bem.
Então, porque a morena não olhou de volta? Aquele olhar de canto de olho. Que esconde tudo, de forma escancarada?

Porque eu pareço tão inapto a manter relações que durem mais de 3 minutos? De persuadir alguém, de conseguir um mísero número de telefone?

Tenho sido um fracasso no tocante a intervenções sociais.
E sinceramente, não sei o que acontece. Só fico parado, olhando a menina de óculos, na minha frente.

Ela gostaria de mim?

A van chega. Ela mora na cidade do lado. Ajuda a irmã a subir e fecha a porta.

Não tem despedida. Nem olhares se cruzando.

É rapaz. Agora é um fato.

Não apenas me sinto. Tenho certeza que sou invisível agora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário