Vivemos numa metrópole doente.
Acordamos em cubos de concreto,
preparamos nosso desjejum sintético.
Café expresso. Macarrão instantâneo.
Alimentos solúveis.
Nos esprememos em todo tipo de móvel,
invenções doentias.
Elevadores, metrôs, escadas rolantes...
Poupamos tempo para o trabalho,
para os estudos, para o "lazer".
Poupamos tempo para viver sem tempo.
Vendemos autonomia por segurança.
A uma corporação, a um gerente comercial,
a um pastor espiritual.
Pagamos caro para nos sentir cuidados
porque não conseguimos criar laços.
Gastamos a vida em universidades.
Ávidos por aprender,
desaprendemos o primordial.
Voltamos pra casa quase vivos
e nos permitimos sorrir
por quase nada.
Somos medidos,
pesados,
formatados.
Vivemos amores platônicos,
literais,
digitais.
Acabamos com menções dispersas,
sepultamentos esvaziados
e epitáfios inescritos.
Desbotamos como estrelas,
sufocadas no céu cinzento
de mais um dia que vem nascer.

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