sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Crítica - Rebuild of Evangelion

Se você gosta de animação e não esteva trancado numa caverna nos últimos 20 anos com certeza conhece Neon Genesis Evangelion.

A obra prima da Gainax é um dos animes mais influentes do século XX e com certeza um dos mais importantes da historia.
Durante muito tempo, Eva foi considerado o anime que "mudou" a forma como se produz esse tipo de mídia.

O panorama em que EVA nasceu nunca foi animador. E isso só acelerou seu sucesso. Imaginem a situação.

Em 17 de janeiro de 1995 um terremoto mata quase 5 mil pessoas em Kobe.
Em 20 de março, 12 mortos, 50 sequelados e mais de 6000 feridos no atentado com gás Sarin (o mesmo da Síria) no metro de Tokyo.
A economia japonesa não vivia seus melhores dias e o desemprego só aumentava.
O estúdio a beira da falência só tinha dinheiro para produzir uma temporada de alguma animação, e o principal roteirista do time havia acabado de sair (?) de uma crise depressiva de consumiu 4 anos da vida dele.

Evangelion foi ao ar em 4 de outubro de 1995, com um plot manjado, cheio de clichês e com uma deadline de 26 episódios.
Já nasceu fadado ao fracasso.
Mas o golpe de mestre de Anno (o roteirista) foi apostar em monstros muito mais assustadores que os "Anjos" da série.
Evangelion se trata, em sua abordagem mais reducionista, da novela do crescimento do protagonista, Shinji.

Uma criança de 14 anos infeliz, covarde e completamente incapaz de demonstrar amor próprio.
Utilizando o cenário pós apocaliptico de Tokyo 3, Anno conseguiu atingir onde animações pop dificilmente conseguem: o coração de seus consumidores. O dissabor da vida de Shinji tinha muito mais a ver com as dores secretas dos espectadores do que com a salvação da humanidade.

Shinji foge do "astro" padrão. É pequeno, tímido, covarde.
Sua vida pode ser resumida num oceano de angústia e dor, que ele insiste em engolir todos os dias, recluso dentro da concha. Talvez não seja esse o arquétipo de herói que se espere numa mídia qualquer, mas Shinji representava perfeitamente a realidade daquela geração.

Evangelion já nasceu mórbido. Quase niilista.
Fala sobre o descobrimento das motivações, das vontades ocultas, da sexualidade. O descobrimento da dor. E o caminho de volta depois.

Conquistou uma público absurdamente vasto, porque fugiu ao óbvio mercado mainstream.
Abusando de referencias religiosas ocidentais, Eva navegava do Cristianismo ao Judaismo a todo momento.
Bebeu da fonte de Schopenhauer, Hegel e Kierkegaard. Em todos os momentos, fez uso primoroso de Freud, Jung e Lacan.

O sucesso de Eva foi tão intenso que seus episódios finais são alvo de discussões até hoje, 19 anos depois.

Dois filmes foram produzidos na tentativa de explicar melhor o final, e em setembro de 2007 tivemos o lançamento oficial de Rebuild of Evangelion. São quatro filmes que vão recontar a história de Eva, sendo que em dois deles o roteiro será inteiramente novo (e obviamente, teremos um final diferente).

Bom, agora que levei quase duas horas "resumindo" o fenômeno Evangelion, posso me dedicar as minhas críticas sobre os três filmes lançados. E lá vamos nós.

Evagelion 1.0 You are (not) alone

O primeiro filme serve pra matar a saudade do espectador old school. 1.0 é um resumo do primeiro quarto do Anime, onde somos apresentados a Nerv (uma agência controlada pela ONU para defender a humanidade dos "Anjos"), sua equipe, os Evangelions e os Anjos.
Apesar de contar uma história já conhecida, o filme faz pequenas atualizações no enredo. Cenas de combate foram recriadas, muitas vezes sendo mostradas de ângulos diferentes - chegando ao cúmulo de ter desfechos completamente inesperados.
A personalidade de alguns personagens também sofre alguns upgrades, o que os deixa mais aceitáveis e até menos caricatos.

Uma menção especial ao espetáculo que se tornou a luta contra Ramiel (o último anjo apresentado na história), completamente reescrita. A relação de cuidado entre Shinji e Rei ganha um significado mais cálido na releitura - destoando do que seria mais mecanicista na obra original.

Evangelion 2.0 You can (not) advance

No segundo filme é feita a entrada de uma das minhas personagens favoritas da série, Asuka Langley Soryu Shikinami. É interessante que Asuka representa a anátema de Shinji. Enquanto um é introspectivo e covarde, a outra é a personificação do carisma e da auto confiança. Outra personagem (essa filler) é inserida, a piloto Mari Makinami.
Enquanto 1.0 trabalha as frustrações pessoais de Shinji, 2.0 vai um pouco além.
Sua atmosfera é mais amigável, mais suave. Em alguns momentos, é quase familiar.
Explora em especial a relação do protagonista com a Primeira Criança (Rei), conduzindo o desfecho para algo improvável na série original.
Outro ponto que destoa bastante do primeiro filme - e da própria série em questão - é o uso quase explícito da sexualidade dos personagens. Nada que chegue ao mal gosto, mas serve para dar um enfoque diferenciado em alguns temas que eram apenas sugeridos no anime.
2.0 muda muita coisa, podendo alterar de forma drástica acontecimentos da série. Porém, mesmo as alterações mais esdrúxulas (como os vários momentos de alívio cômico) são muito bem aceitos - o filme como um todo funciona bem.

Sendo melhor escrito, melhor desenhado, muito mais eficiente que o antecessor, 2.0 supera a mítica de que "o segundo episódio é sempre parado". E tem um final que vale cada um dos 112 minutos de película.

Evangelion 3.0 You can (not) redo / Q

3.0 não tem nada de Eva. Nada mesmo.
É completamente inédito, inesperado, o ambiente - além de opressor - chega a ser caótico.
O roteiro (que acelera em 2.0) cadencia de novo. Grande parte do filme é sobre as relações dos personagens (que foram drasticamente afetados pelos eventos finais de 2.0). Shinji acorda de um sono de 14 anos, num mundo novo, hostil, cheio de faces familiares - mas envelhecidas.
Sem entender nada, você facilmente vai se colocar no lugar do protagonista.
E esse é o mérito de 3.0. Como tudo fabricado sobre Eva, vai dar um nó no seu cérebro. Mas aqui, Anno quebra paradigmas.
Se no segundo filme tínhamos um elenco cheio e diálogos juvenis, a atmosfera mais alegre e jovial, 3.0 chega a ser cruel.
São poucos personagens, distribuídos em um mundo vazio e dilapidado. A sensação de isolamento transmitida em alguns cortes é absurda.
Os fatos que se desenrolam chocam (sim, CHOCAM). Vemos Shinji atingir o fundo do poço mais fundo que ele conheceu. Em contra-partida, Asuka brilha como uma estrela (rancorosa, mas fulgurante).
A releitura de Misato é fantástica. E o que aconteceu com o mundo, afinal?
As cenas de batalha em 3.0 (concentradas no começo e no fim do filme) são excepcionais.
E um desfecho que planta, mais uma vez, uma interrogação do tamanho de uma Eva na sua cabeça.

Resumindo

Do ponto de vista técnico, Rebuild of Evangelion é monstruoso.
A tecnologia que não existia (e nem fez falta) na série original é utilizada com soberba.
Os movimentos dos personagens, os chiaroscuro de algumas cenas, o espetáculo de cores que se tornam as batalhas nos Evas... é tudo lindo.
Uma fotografia digna de bockbuster, uma trilha sonora excepcional, a qualidade cirúrgica do CGI... chega a ser covardia comparar Rebuild com outras obras.

Não encontro um único demérito nesses conceitos.

No tocante ao roteiro, talvez você não goste de animes que perdem mais tempo explicando o existencialismo que vertendo sangue na tela. E isso pode ter te afastado de Evangelion lá pelos idos de 1996.
Mas, se me permite uma observação, dê uma chance para o Rebuild.

É uma releitura, e isso exige que alguns tópicos sejam descartados. A essência cult continua lá, só foi compactada para que tudo "coubesse" direitinho.

E mesmo os adeptos da série, que torceram o nariz quando o remake foi anunciado (eu), por favor: deem uma chance para o Rebuild. A série é incrível, e mesmo que não tenha a mesma densidade da obra original, ainda carrega todo o seu charme. É quase romântico rever os mesmos personagens quase 20 anos depois.

Evangelion foi, durante muitos anos, meu único "protótipo" de vínculo social.
Graças a Evangelion eu pude pedir ajuda, entendi grande parte dos meus dilemas e (veja só) até descobri a profissão que eu iria amar.

No fim, Rebuild of Evangelion é uma pequena (grandiosa) vitória da Gainax.

Vale cada minuto na frente do computador.
Se no fim das contas, os personagens não tocarem seu coração, pelo menos você vai ter visto robôs gigantes despedaçando monstros gigantes.

E isso já é foda pra caralho!

E se você chegou até aqui, dá um play no sonzinho abaixo.

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