sábado, 23 de agosto de 2014

Sobre corvos, sereias e o acaso


Eu era uma criança solitária. Tinha poucos amigos - na verdade, quase nenhum.
Durante muitos anos, meus melhores colegas eram pilhas e pilhas de livros.
Haviam algumas pessoas que me impediam de enlouquecer, mas de resto, buscava na literatura um pouco de sossego.

Dois autores em especial marcaram minha infância (e minha vida).
Poe - com seu niilismo crônico e Wilde - com sua moral agridoce.
Minhas obras favoritas eram "The Raven" e "The Fisherman and his Soul".

Bom, quase 20 anos depois, eu continuo pessimista, frustrado e cínico. Depois de alguns anos você simplesmente se habitua em acordar meio triste, meio disposto, meio vivo. Meio cinzento. Você se acostuma com uma abordagem medíocre da própria vida.
Minha vida poderia facilmente ser ambientada em qualquer obra do americano.
Viver no inverno por duas décadas, esperando pelo fim, grasnando sempre as mesmas coisas...
Eu realmente tenho sido um corvo. E confesso que se tornou cômodo continuar assim.

Mas sabe... Andei pensando... existem sereias por aí? 

Hoje eu percebi que gostaria - e muito - de vislumbrar o universo idílico de Wilde. 
Mesmo sob a pena de enfrentar os desfechos - geralmente - infelizes do irlandês.

Hoje eu percebi que quero muito - muito mesmo - viver um pouco do Verão.

Quero deixar todos esses problemas sem solução como estão: solucionados.
Seguir em frente com o que der, gravar memórias que me tragam orgulho - e não mais pesar.
Me atirar sem medo de quebrar a asa. O que pode ser pior que passar mais tempo nesse estio desgraçado?

E por mais que pareça estranho, gostaria de poder gostar de uma sereia. 
E quem sabe - quem sabe? - essa sereia goste de mim também.

São coisas que conversas descompromissadas me levam a pensar. Coisas que só o acaso colocam (com precisão cirúrgica) no meio do caminho.

Enfim... acho que estou sonhando demais...

Ou não?

Veremos...

PS.: A arte maravilhosa que ilustra o post é de autoria de Chiara Bautista. E o tema do texto (bem como a imagem escolhida) apareceram de forma tão espontânea que não... acho que devia mesmo ser assim.

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