sábado, 12 de dezembro de 2015

Inércia


Estou trancado no quarto a cerca de oito horas.
Esse cubo tem pouco mais de 9 metros quadrados.
E é aqui onde eu passo grande parte do meu tempo.
Quando não estou na universidade ou no estágio, todo ele.

Meus vizinhos não se contentam em ser felizes.
Nos fins de semana, dividem sua musica ruim com todos.
As janelas chacoalham com os graves de seus aparelhos de som.
E eu desejo que todos eles - um por vez - morram silenciosamente.

Eventualmente alguém bate na porta do quarto.
Me convida a ver a vida, a sair um pouco.
Me chama para uma refeição.
Mas eu não saio.

Não.

Vocês me empurraram pra cá desde sempre.
Me fizeram perceber o quão deslocado eu era.
E me mostraram que eu não tinha lugar nenhum.
Que eu era o retrato constrangedor dos erros do seu sangue.

Eu sei.

Eu me tranco aqui voluntariamente.
Eu saio pela manhã, antes do sol surgir.
E quando retorno, vocês todos já foram dormir.
Porque eu não preciso que ninguém veja meu rosto.

Eu não preciso que ninguém pergunte como foi meu dia.
Eu não preciso que as pessoas finjam interesse.
Não preciso de sorrisos amarelados.
E de intenções simuladas.

Esse quarto é tudo que eu ainda tenho no mundo.
E meu mundo pode ser resumido a esse quarto.
Mesmo que seja úmido, abafado, escuro.
Esse quarto é um pedaço de mim.

Mas eu me sinto tão sozinho.
E as vezes - só as vezes - queria alguém aqui.
Porque ninguém entende como é desesperador estar só.
Mas eu estou só.
Sozinho.


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