terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Pingos de tinta
Eu vivi minha vida inteira sendo descuidado.
Durante muitos anos eu agi como se eu não tivesse razão para viver mais um dia.
Honestamente, eu não acreditava que não valia a pena continuar vivendo apenas por viver.
Nunca fui o tipo de pessoa que tomou muitas precauções consigo mesmo - digo, pelo menos não como todo mundo.
Na verdade, sempre fui displicente.
Eu me arrastava na escola, e não me sentia motivado por ter algum destaque ou reconhecimento.
Eu me sentia no meio de chimpanzés. E ser o chimpanzé mais esperto do zoológico não quer dizer muita coisa.
Não me lembro desde quando eu comecei a comer e dormir apenas o necessário pra fazer meu corpo se arrastar por aí. Antes eu também era descuidado com remédios. Eu simplesmente me drogava até achar que os efeitos estavam suficientemente bons. E muitas vezes ignorava a dosagem recomendada - isso lesionou um pouco meu fígado.
Não era o tipo brigão. Mas desde que me lembre, nunca fugi de uma briga. E não posso dizer que sai ganhando todas (na verdade, acho que pouquíssimas) delas.
Me lembro que durante um breve espaço da minha vida eu bebia. Bebia muito. E tinha os analgésicos. E os dois juntos. Por um bom tempo.
Eu dirigia por aí, e fazia isso sem cinto de segurança, sem muito interesse e - admito - sem muitas preocupações. O carro vivia machucado, e acho que se tivesse acontecido algo naquela época, eu não teria me lamentado tanto.
No fim das contas, mesmo tendo uma vida confortável eu acho que... Não queria prolongá-la por muito tempo.
Mas alguém apareceu e muita coisa mudou.
E de repente eu não reagia mais só por instinto. Não era mais a auto preservação animal, aquela que fazemos por reflexo - e não por vontade.
De repente... eu percebi que apesar de me achar um lixo, patético e sem nenhum tipo de valor, eu não queria mais simplesmente desaparecer.
A vida não tinha ficado bonita do dia pra noite, meus problemas não estavam resolvidos e eu não tinha me tornado um super herói. Tudo ainda estava cinza, a depressão, a ansiedade, tudo estava lá.
Mas alguém apareceu. E eu percebi que, quando colocava minha cabeça no travesseiro, eu passei a sentir medo de não acordar mais.
Porque eu queria passar mais tempo com ela.
Eu realmente queria estar perto dela, mesmo que fosse só pra ouvir a respiração dela.
Mesmo que fosse pra andar pra cima e pra baixo, até sentir dores nas costas e nos pés.
Porque quando eu estou com ela, eu me esqueço da frustração e do desespero que é viver nesse mundo.
É pouco, e não dá pra entender muito bem. Na verdade, muita gente não sabe o que é isso.
Mas infelizmente, quem não ama, não sabe.
Eu nunca sei como reagir. Porque no fim, eu nunca soube o que era ser assim, "feliz".
Mas se existe algo que eu sei é que, mesmo que eu não tenha uma vida maravilhosa, mesmo que ainda seja difícil sair da cama e encarar o mundo, me olhar no espelho e enfrentar meus monstros particulares...
Ela me deixou mais forte. E fez com que eu amasse a vida um pouco mais.
Ela não pintou meu mundo inteiro de rosa. Mas espalhou pinguinhos de tinta aqui e ali, e assim, em todos os lugares do mundo, eu vejo um pouquinho dela.
Ela me ajuda a transformar essa tela cinza em uma aquarela.
E sou muito grato por isso.
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