sábado, 9 de janeiro de 2016

Bianca

Era uma manhã cinzenta do fim de setembro.
A chuva fina borrifava suas gotas pela vidraça, enquanto Bianca estava sentada no sofá, com sua cabeça debruçada no barramento de madeira.

Pensava ser um pouco patética por, depois de tantos meses, tomar a decisão de sair da casa dos pais.
O curso de Artes Plásticas não era sua primeira opção - Bianca sempre desejou ser veterinária - mas era a escolha mais adequada para levá-la para novos ares. E de fato, era o campus mais distante de casa que havia conseguido, que com um ingresso no meio do ano letivo, acabou providencial. No fim, a opção parecia correta.

Havia decidido dar uma pausa na arrumação das malas.
Elas levariam muito pouco, de fato. O que dava trabalho não era estocar as coisas que seriam levadas.
Bianca lutava para deixar para trás tudo que, de alguma forma, a lembrasse da sua vida anterior.
Escolhia, com meticulosidade, as roupas que sempre ignorava no armário. Blusas de um profundo azul marinho, calças mais largas, tecidos fibrosos, tinturados em sépia e tons pasteis.
Não eram roupas que simbolizam seu ideal de "vida". Mas a vida que ela conhecia - até aquele momento - já não significam mais grande coisa. Já não haveria prazer em vestir seus shorts curtos e camisetas coladas. Não havia mais cor no vermelho, no laranja, no branco.
Não mostraria mais suas pernas. Seus ombros. Suas costas. Não deixaria as unhas crescerem nem calçaria saltos. Não queria mais se sentir bonita - pois assim, talvez, ninguém mais tocasse nela.
Não havia nada além de lembranças dolorosas, que ela desejava urgentemente esquecer. E as lembranças vinham em uma torrente, sempre que ela baixava a guarda.
Por um instante os olhos se perderam no horizonte encharcado, para logo depois recobrarem a vida, tão úmidos quando as paredes externas do seu quarto.

Bianca se encolheu no canto, fugindo da vidraça. Tapou os olhos, escondendo o rosto do mundo. Deixou suas mãos pequenas deslizarem pela fronte, subindo até o topo e descendo em direção a nuca. Seus cabelos cortados bem curtos, recém tingidos de preto azulado, não eram nada condizentes com os fios castanhos, amendoados, longos e volumosos, dos retratos espalhados pelo quarto.
Ela ainda podia sentir a dor, o desconforto, a vergonha de sentir os cabelos puxados.
Podia sentir o desespero de gritar, gritar e gritar - até sentir o gosto de sangue na garganta - e não ser ouvida. Por ninguém.

Bianca não o conhecia. Pelo menos não dessa forma.
Eles estudaram na mesma escola. Cursaram algumas disciplinas juntos.
Mas não sabiam nem mesmo os nomes um do outro.
Ela havia bebido um pouco além da conta, é verdade.
Suas roupas eram curtas - mas era verão, e moravam no litoral.
E ela não tinha nenhum interesse por ele. 
Mas ele não se importou com isso.
E a arrastou para o estacionamento mesmo assim.
Seus braços finos ficaram marcadas com hematomas profundos.
Ela não conseguiu medir forças, e se envergonhava tão profundamente por isso.

Outros graduandos passaram. Alguns ficaram. Assistiram.
E mesmo que ela pedisse pelo amor de Deus, ninguém fez nada.
Nada.

Depois de um tempo, a voz desapareceu.
Logo depois, qualquer vestígio de força foi sumindo.
Por fim, a única coisa que ela podia fazer era esperar acabar.
E depois de uma eternidade, finalmente, acabou.
E ela foi deixada sozinha. Machucada.

Faz dez meses. E Bianca decidiu tocar sua vida em frente.
Tentar deixar para trás tudo que ela foi um dia - tudo que foi amputado dela naquela noite.
Ela perde horas no banho. Perde horas esfregando seu corpo porque não quer mais sentir aquele cheiro impregnado. E as vezes esfrega tanto, que machuca.

E todas as noites ela chora - porque não entende a bizarrice e a incoerência desse mundo.
Porque ela não pode - e nunca poderá - contar isso para nenhuma pessoa.
Porque ela sempre será a vagabunda. A oferecida.
Porque ela bebeu. Porque ela era bonita.
Porque seu pai a chamaria de piranha.
E sua mãe diria que ela não se deu ao respeito.
Porque os rapazes iriam vê-la (mais ainda) como um objeto.
E as meninas olhariam pra ela com desprezo ou - pior ainda - pena.

Porque indiferente do que aconteça, ela se sente sozinha.
E, em certa dimensão, ela estará sozinha até o último dia de sua vida.
Porque um pedaço dela foi arrancado, e essa ferida nunca - nunca - sara.

Bianca pensa em cada pessoa que está agora, sozinha, em seu próprio purgatório particular.
Em cada ser humano, vitimado e abusado, transformado em algo menor que um grão de mostarda.
Em cada indivíduo que, como ela, desejou morrer por tanto tempo.
E isso a entristece.

Há tanta dor no mundo. E tanto sofrimento. E não há ninguém a culpar a não ser nós mesmos.
Bianca deitou no sofá, esperando dormir um pouco. Havia algo diferente na chuva, algo que fazia com que ela se sentisse mais limpa, mais leve, purificada. 
Seus olhos - os olhos de uma criança - começaram a se fechar suavemente.
Nos sonhos, Bianca não precisava temer. Nos sonhos, ela estava livre de qualquer forma de controle.
De opressão. De sofrimento.

Adormeceu em pouco tempo.
E qualquer um que a observasse assim jamais poderia dizer tudo que aquela menina havia suportado.
Bianca tem apenas 17 anos.



Talvez exista uma Bianca sentada ao seu lado, no escritório do trabalho. No assento do metrô. No banco da igreja. Talvez exista uma garotinha chorando desesperada no apartamento ao lado do seu.
Nenhum ser humano deveria sentir uma dor como essa.
Não compactue com algo assim.
Não lave suas mãos.
Por favor.

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