A algum tempo eu estava andando pela minha cidade natal. Era o fim da minha folga, e fazia um frio lastimável.
Eu decidi que queria voltar caminhando, e depois de 2 quarteirões eu encontrei, caído no chão, um minúsculo filhote de pardal.
Ele devia ter alguns dias, ja tinha uma plumagem considerável e - de forma nenhuma - seria tratado pela mãe.
Ele não receberia mais alimento. Nem aprenderia a voar dali, onde estava.
Ele estava, de qualquer modo, fadado a morrer.
Eu sempre fui fraco com essas coisas... Peguei o pássaro, coloquei dentro do meu casaco e levei pra casa.
Chegando lá, improvisei tudo que podia pra não deixá-lo morrer. Uma casa quentinha, um bebedouro, e como não fazia a menor ideia de como alimentar o pobre eu fui pesquisar. Nao havia mais onde comprar a ração, nenhum lugar estava funcionando.
Improvisei uma papinha com ovos e algumas coisas, qualquer porcaria que encontrei na internet.
Ele comia aquilo havidamente.
Eu me lembro que ele piava como louco o tempo todo, e eu ia alimentá-lo esporadicamente - santa Internet.
Aquilo comoveu meus outros animais. Meu canário Bruce parecia curioso. Minha poodle Belinha dormiu na porta da cozinha, e a qualquer sinal de vida do pardal vinha vigiar meu procedimento.
Ele não tinha energia - nem chances - pra ficar gastando.
Eu decido chamá-lo de idiota.
Me lembro de ir ao trabalho e voltar correndo (literalmente) pra saber como Idiota estava no final do dia.
Ele estava morto na sua "suíte".
Eu sei que parece imbecil mas... Eu chorei...
Dezenas de milhares de anos de evolução humana, do estabelecimento da veterinária, depois de passar 90% da minha vida numa escola... Eu não conseguia salvar nem uma vida minúscula.
Meu único "sucesso" foi prorrogar o sofrimento daquele animal por mais 24... 25 horas.
Não teria sido melhor deixar ele lá, congelando na primeira noite?
Ao tentar dar a ele esperanças de que seria capaz de salvá-lo, eu me dei ao luxo de criar esperanças.
E fracassei.
Hoje, é o fim de outra folga.
E eu me pergunto se, mais uma vez, não estou mantendo um pássaro vivo só por um capricho infantil.
Não sei porque eu estou alimentando, de novo, esperanças.
De que amanhã eu acorde... "Feliz".
Nunca parei pra pensar em como aquele animal era parecido comigo. Perdido num lugar cinza, que por acaso foi cruzado por alguém. Que por um minuto sentiu calor nos braços de outra pessoa... Mas que não pertencia aquilo.
E essa perspectiva assusta.
Eu acho que nunca devia ter deixado os comprimidos...
No fim das contas, fui só mais um idiota.
Esperando a folga acabar.

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